HER2-low e HER2-ultralow: a descoberta que mudou o tratamento do câncer de mama
Nova classificação dos tumores revelou um grupo de pacientes que ficava invisível para a oncologia

Karina Gonçalves tinha 38 anos quando ouviu o diagnóstico de câncer de mama. Entre a administração da sua clínica de estética e os estudos na faculdade, precisou reorganizar a rotina para incluir exames, consultas e sessões de tratamento. O ano de seu diagnóstico, 2025, coincidiu com uma mudança significativa na definição do tratamento oncológico.
Os tumores de mama eram classificados como HER2 positivo ou negativo. A classificação leva em conta a presença de uma proteína na superfície das células tumorais. Pacientes com tumores HER2 positivos podiam receber terapias-alvo específicas, enquanto as classificações negativas seguiam outros protocolos.
A ciência descobriu que essa classificação deixava escapar nuances importantes. Muitas mulheres consideradas HER2 negativas apresentavam pequenas quantidades da proteína nas células tumorais. Não o suficiente para serem classificadas como positivas, mas o bastante para influenciar a resposta ao tratamento.
A partir daí surgiram os conceitos de HER2-low e HER2-ultralow. "Antes, essa informação já aparecia nos exames, mas não tinha impacto na escolha do tratamento. Hoje ela faz diferença porque existem medicamentos capazes de agir justamente nesses tumores", explica Fernanda Guasti, coordenadora de Oncologia do Hospital Paulistano.
A grande responsável por essa mudança é uma nova geração de medicamentos conhecida como ADC, sigla para anticorpos conjugados a drogas. O mecanismo funciona como uma terapia direcionada onde o anticorpo localiza a célula tumoral e leva até ela a substância responsável por destruí-la. Com isso, o tratamento ganha precisão e reduz a exposição dos tecidos saudáveis.
A descoberta reforça uma tendência para abordagens padronizadas. "Não existe um único câncer de mama. A decisão terapêutica leva em conta características moleculares, estágio da doença, idade da paciente e diversos outros fatores. O que sabemos hoje é muito diferente do que sabíamos dez anos atrás", afirma a especialista.
Um diagnóstico cada vez mais presente entre mulheres jovens
Os avanços acontecem em um momento em que os oncologistas observam um aumento dos diagnósticos entre mulheres jovens. Embora não exista uma explicação única para o fenômeno, fatores relacionados ao estilo de vida, obesidade, alimentação e predisposição genética estão entre as hipóteses investigadas.
O rastreamento das mutações BRCA1 e BRCA2, associadas ao câncer hereditário, também ajuda a identificar grupos de maior risco. E, apesar das inovações terapêuticas, o diagnóstico precoce segue sendo a ferramenta mais poderosa contra o câncer de mama. "Quando a doença é identificada nas fases iniciais, as chances de cura são significativamente maiores. Além disso, manter hábitos saudáveis e os exames em dia continua sendo fundamental", reforça Fernanda Guasti.
Mais do que novas categorias, a identificação dos tumores HER2-low e HER2-ultralow ampliou as possibilidades de tratamento para um grupo de pacientes que, até pouco tempo atrás, tinha opções mais limitadas. É um retrato de como a oncologia evolui ao aprofundar o entendimento sobre a biologia dos tumores e transformar detalhes antes considerados secundários em oportunidades concretas de cuidado.
Essa nova classificação permitiu que Karina tivesse acesso a uma abordagem terapêutica que não estava disponível para uma paciente na mesma situação poucos anos atrás. Com o exame mais detalhado do tumor, foi possível adotar uma estratégia de tratamento mais precisa e com melhores resultados. Hoje, após concluir as etapas mais intensivas da terapia, ela segue apenas com medicação oral, mantendo acompanhamento médico regular.