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K-drama fenômeno da Netflix reacende debate sobre identidade e trauma

Entre os títulos mais assistidos da Netflix, a série provoca reflexões sobre Transtorno Dissociativo de Identidade, traumas e sofrimento mental
 

Rio de Janeiro, RJ- O Amor Pode Ser Traduzido? vem capturando a atenção do público desde sua estreia no catálogo da Netflix e figura, há semanas consecutivas, entre os títulos mais assistidos da plataforma. O k-drama conquistou fãs ao narrar a história de amor entre o intérprete Ho-jin (Kim Seon-ho) e a atriz Mu-hee (Go Youn-jung), em uma trama que combina romance, dor emocional e uma elaborada construção psicológica.

Marcada por experiências afetivas traumáticas, a protagonista encontra refúgio em uma criação psíquica singular: Do Ra Mi, a zumbi que ela interpreta em um filme responsável por alavancar sua carreira. A persona ultrapassa os limites da ficção dentro da própria narrativa e passa a “assombrar” Mu-hee, misturando-se à sua identidade e levantando uma dúvida recorrente entre os espectadores: Do Ra Mi seria uma representação do Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI)?

Especialistas da Rede Total Care e das Linhas de Cuidado da Amil ajudam a esclarecer o debate. O Transtorno Dissociativo de Identidade é uma condição rara e complexa, caracterizada pela presença de duas ou mais identidades distintas, acompanhadas de lacunas de memória, perda involuntária de controle e prejuízo significativo no funcionamento social e emocional. Estima-se que o transtorno afete cerca de 1% a 2% da população mundial. Ainda pouco diagnosticado, costuma estar associado a históricos de traumas graves e repetidos na infância, como abuso físico, sexual ou emocional, além de negligência severa.

Segundo o coordenador de saúde mental da Rede Total Care, Dr. Maurício Okamura, no entanto, a narrativa do k-drama não retrata o transtorno de forma clínica. Do Ra Mi funciona como uma persona defensiva, consciente e integrada à identidade da protagonista. Na narrativa do k-drama,Do Ra Mi funciona como uma persona defensiva, consciente e integrada à identidade da protagonista. São mostrados apagões de memória e alternância involuntária entre estados.

Trata-se de um recurso narrativo interessante utilizado para representar estratégias emocionais de enfrentamento diante de rejeição, insegurança e dor psíquica, decorrentes dos traumas vividos por Mu-hee na infância. “Embora a série utilize o TDI como um potente recurso dramático, é fundamental separarmos a licença poética da realidade clínica. A classificação internacional define o transtorno pela presença de identidades que operam com barreiras de memória reais, algo que vai muito além de uma simples troca de humor ou comportamento. No TDI, a fragmentação é uma defesa extrema da mente contra traumas severos na primeira infância. Na ficção, as trocas são nítidas e quase teatrais; na vida real, a condição é sutil e muitas vezes invisível, marcada por lapsos de tempo e pela sensação de não ser o único dono da própria história”, explica Okamura.

Experiências adversas na infância podem levar à chamada fragmentação emocional, quando diferentes aspectos da personalidade se organizam para proteger o indivíduo do sofrimento. Esse fenômeno, por si só, não é considerado patológico. Humor excessivo, teatralidade e forte controle da própria imagem são mecanismos relativamente comuns em pessoas que cresceram em ambientes afetivos instáveis.

De acordo com a coordenadora das Linhas de Cuidado de Saúde Mental da Amil, Marília Batarra, vivências adversas precoces, especialmente quando repetidas ou associadas à negligência, podem deixar marcas profundas na forma como uma pessoa se percebe e se relaciona com o mundo.

“Isso não significa, necessariamente, o desenvolvimento de um transtorno mental, mas evidencia o impacto do ambiente na construção da identidade e na capacidade de lidar com emoções complexas. No dorama, essa dinâmica aparece de forma simbólica. Do Ra Mi surge como uma metáfora da tentativa de integrar partes fragmentadas da protagonista, expressando tanto sua dor quanto seu desejo de recompor-se emocionalmente”, afirma.

Um estudo publicado no Australian & New Zealand Journal of Psychiatry analisou a prevalência de eventos potencialmente traumáticos na infância e sua relação com o desenvolvimento de transtornos mentais ao longo da vida. Entre os eventos avaliados estão violência, abuso físico ou sexual, acidentes graves, exposição a desastres e outras experiências classificadas como potencialmente traumáticas. Esses fatores impactam diretamente o desenvolvimento emocional, influenciando a forma como o adulto estabelece vínculos, lida com frustrações e regula emoções, processo que o k-drama retrata de maneira simbólica ao longo da trama.

Para os especialistas, o principal risco está em confundir metáforas ficcionais com diagnósticos clínicos reais. “Cada pessoa vivencia a dor e o trauma de maneira única, e personagens de ficção funcionam como representações simbólicas, não como retratos clínicos. Essas histórias podem estimular reflexão e autoconhecimento, mas diagnóstico e tratamento devem sempre ser conduzidos por profissionais especializados”, ressalta Marília Batarra.

Ainda assim, produções como O Amor Pode Ser Traduzido? podem cumprir um papel relevante ao ampliar o debate público sobre saúde mental, enriquecer o vocabulário emocional e incentivar a busca por informação qualificada.

Quando sinais como sensação persistente de desligamento, lapsos frequentes de memória, sofrimento emocional intenso ou dificuldade contínua em manter relações passam a interferir na vida cotidiana, a orientação é procurar ajuda profissional especializada.

“Enquanto na TV Do Ra Mi surge como uma companhia quase mística, a realidade de quem convive com o transtorno é muito mais silenciosa. O tratamento não busca eliminar partes da identidade, mas acolhê-las, promovendo diálogo e integração. A ficção pode despertar empatia, mas o processo terapêutico é o que permite ao paciente retomar o controle da própria história, sem precisar se esconder atrás de personas para sobreviver ao peso do passado”, conclui Maurício Okamura.

Sobre a Amil

A Amil é uma das maiores operadoras de saúde do Brasil, fundada em 1978, no Rio de Janeiro. Desde então, leva o melhor cuidado às pessoas, com planos médicos e odontológicos que atendem a diferentes perfis de clientes - são 6,1 milhões, atualmente. Além de contar com uma ampla rede credenciada, a Amil possui um sistema de saúde completo, formado por uma rede própria de hospitais e unidades ambulatoriais.

Sobre a Rede Total Care

A Rede Total Care, do Grupo Amil, é um conjunto de hospitais e serviços de saúde que tem como missão oferecer uma assistência médica de alta qualidade, focada na inovação, eficiência e no cuidado humanizado aos seus pacientes. Com o objetivo de transformar a experiência no setor de saúde, a Rede Total Care proporciona um atendimento completo, desde a prevenção até o tratamento especializado, com a garantia de profissionais altamente capacitados e infraestrutura de ponta.