C-drama em alta na Netflix aborda saúde mental e acende alerta sobre sofrimento silencioso
História de Sun Yuanzhu, personagem de The Early Spring, chama atenção para a dificuldade de reconhecer e verbalizar o sofrimento emocional

Rio de Janeiro, RJ - Entre os dramas chineses que conquistaram o público brasileiro, The Early Spring ganhou destaque e atualmente está entre os três títulos mais assistidos da Netflix no país. Além do romance e das relações familiares que movimentam a trama, a produção também abriu espaço para uma discussão importante sobre saúde mental, especialmente a partir da história de Sun Yuanzhu, personagem interpretado por Liu Xiaobei.
Estrelado por Jing Boran e Sun Qian, o C-drama apresenta Yuanzhu como um jovem que trabalha na área de tecnologia da informação. Tranquilo, gentil, responsável e muito querido pelos amigos, ele transmite, à primeira vista, a imagem de alguém equilibrado e capaz de lidar com as próprias dificuldades. Por trás dessa aparência, porém, existe uma intensa sobrecarga emocional que culmina em uma tentativa de suicídio.
A história do personagem é marcada por uma série de responsabilidades. Ele vem de uma família com dificuldades financeiras, perde a mãe para o câncer, convive com um pai dependente de apostas e assume grande parte do sustento da irmã mais nova, que depende financeiramente dele para estudar. Enquanto direciona boa parte da renda para a família, Yuanzhu passa a negligenciar as próprias necessidades básicas, como alimentação e descanso.
Ele está sempre disponível para os outros, oferecendo apoio e cuidado, mas encontra dificuldade para falar sobre os próprios sentimentos. A postura gentil e serena acaba funcionando como uma espécie de máscara para uma situação emocional que se torna cada vez mais difícil de sustentar.
A história ficcional também dialoga com uma realidade preocupante. No Brasil, o suicídio representa cerca de 4,21% de todas as mortes entre jovens adultos de 20 a 29 anos, segundo dados baseados em registros do Sistema Único de Saúde (SUS). Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) aponta que a população jovem apresenta risco de suicídio de 31,2 casos para cada 100 mil habitantes, acima da taxa geral, de 24,7 por 100 mil habitantes.
Entre os homens jovens, o índice chega a 36,8 casos por 100 mil habitantes. Segundo a pesquisa, eles representam 61,3% das internações por problemas de saúde mental, com uma taxa de 708,4 internações por 100 mil habitantes, 57% superior à observada entre mulheres, de 450 por 100 mil. Menos da metade dos jovens internados por questões de saúde mental recebe acompanhamento médico ou psicológico após a alta.
Para a coordenadora de Saúde Mental das Linhas de Cuidado da Amil, Marília Batarra, um dos primeiros passos para cuidar da saúde mental é reconhecer o próprio sofrimento.
“Existe uma dificuldade cultural em aceitar que não estamos bem. Para algumas pessoas, admitir isso significa entrar em contato com uma sensação de fragilidade, dependência ou perda de controle. Então elas continuam funcionando, trabalhando, cuidando dos outros e cumprindo suas responsabilidades, enquanto internamente estão cada vez mais sobrecarregadas”, afirma.
Segundo a especialista, não existe um perfil único de pessoa que possa apresentar sofrimento psíquico ou comportamento suicida. Algumas pessoas, no entanto, aprendem ao longo da vida que precisam ser fortes, resolver problemas e cuidar dos outros. O problema surge quando essa característica se transforma em uma regra interna: “eu preciso dar conta”, “não posso demonstrar fraqueza” ou “não posso preocupar ninguém”.
Essa cobrança também pode se manifestar de maneiras diferentes de acordo com o gênero e o contexto social.
“Nos homens, por exemplo, ainda existe uma expectativa cultural muito forte de autocontrole e resistência emocional. Isso pode fazer com que alguns tenham mais dificuldade para reconhecer e verbalizar o sofrimento e procurem ajuda apenas quando a situação já está muito agravada. Entre as mulheres, por outro lado, a sobrecarga pode aparecer associada à expectativa de conciliar diferentes papéis, como profissional, mãe, filha, cuidadora e parceira, além da sensação de que precisam continuar funcionando apesar do cansaço”, acrescenta.
Quando ligar o alerta
Tristeza, frustração, medo e estresse fazem parte da vida. Ter saúde mental não significa estar bem o tempo todo. A atenção deve aumentar quando o sofrimento passa a ocupar um espaço grande demais na rotina, especialmente quando persiste, se intensifica e interfere no sono, no trabalho ou nos estudos, nos relacionamentos, na capacidade de sentir prazer ou na percepção que a pessoa tem de si mesma e do futuro.
“Também precisamos prestar atenção quando a própria pessoa percebe: ‘eu não estou conseguindo voltar ao meu funcionamento habitual’. E existe um ponto importante: não precisamos esperar que o sofrimento seja extremo para procurar ajuda”, destaca Batarra.
Psicólogos e psiquiatras não devem ser procurados apenas diante de um transtorno mental grave. O acompanhamento profissional também pode ser importante para compreender o que está acontecendo antes que a situação se agrave.
“Muitas vezes, reconhecer que algo mudou e buscar ajuda nesse momento é uma forma de prevenção”, afirma.
O que a ficção pode ensinar
Para Batarra, a maneira como o suicídio é apresentado em produções audiovisuais pode influenciar a forma como o público compreende o fenômeno. Histórias como a de Sun Yuanzhu podem abrir espaço para conversas sobre sofrimento, luto, relações familiares e saúde mental e, principalmente, incentivar pessoas a reconhecerem que precisam de ajuda.
Ao mesmo tempo, a especialista ressalta a importância de abordar o tema com responsabilidade, sem apresentar o suicídio como uma consequência inevitável de determinada perda, como prova de amor ou como solução para o sofrimento.
“Quando uma série aborda casos como o do Sun Yuanzhu, podemos aproveitar a identificação que o público estabelece com os personagens para fazer uma pergunta para a vida real: como estamos cuidando das pessoas que estão ao nosso redor e como estamos cuidando de nós mesmos? Na vida real, porém, precisamos estar atentos às pessoas concretas, às mudanças de comportamento e ao sofrimento que muitas vezes não é verbalizado”, questiona.
Cuidado contínuo
Na Amil, o Programa de Saúde Mental acompanha atualmente cerca de 12 mil pacientes. A iniciativa integra uma linha de cuidado multidisciplinar, com atuação articulada de psicólogos, psiquiatras, enfermeiros, médicos de família e equipes de gestão de saúde, buscando oferecer acompanhamento contínuo e personalizado.
A integração permite uma visão ampliada do paciente, considerando aspectos emocionais, sociais e clínicos de forma conjunta. O principal benefício está na continuidade e na personalização do cuidado, com acompanhamento coordenado que favorece a adesão ao tratamento e reduz o risco de agravamentos.
Sobre a Amil
A Amil é uma das maiores operadoras de saúde do Brasil, fundada em 1978, no Rio de Janeiro. Desde então, leva o melhor cuidado às pessoas, com planos médicos e odontológicos que atendem a diferentes perfis de clientes - são 6,1 milhões, atualmente. Além de contar com uma ampla rede credenciada, a Amil possui um sistema de saúde completo, formado por uma rede própria de hospitais e unidades ambulatoriais.